Todos nós
Técnica Mista, 2010
Memórias de Yaruga Mogalhov
Falashas
O último Judeu de Taipé

Todos Nós

          Todos nós, trata-se de uma série de pinturas a respeito das diferentes subjetividades que permeiam a cultura judaica. As obras partem de questionamentos sobre o reducionismo do termo “judeu” e de sua complexidade e variedade cultural, étnica e histórica, uma vez que os judeus existem há vários milhares de anos e viveram em diversos países, influenciando e sendo influenciados por suas respectivas culturas e etnias.

          O termo “nós” provoca uma ambiguidade de sIgnificados, que pode corresponder tanto ao nó em si, como ao pronome pessoal “nós”. Um nó pode ser considerado uma impureza na ideia de uma linha, mas ao mesmo tempo, vários nós numa linha resultam numa estética, constroem uma poética e uma ideia de rede. Do mesmo modo, se a linha se rompe, só é possível reconstrui-la através de um nó. Nós são amarras e nós também são elos.

Assim também somos nós,  a individualidade pode ser restritiva e excludente ou integrativa e diversificada. Se pensarmos na  rede de conexões e relações construidas a partir dos processos de diáspora, os judeus se encontram interconectados e apesar disso, trazem também subjetividades singulares.

          Comecei o processo, buscando minhas raízes na Europa Oriental, depois de uma viagem de 15 dias pela Rússia, quando concebi a primeira pintura da série “Memórias de Yaruga Mogalhov”. A obra traz nuances ornamentais que compõem elementos em proliferação a partir de influências do trabalho de Klimt, da presença da luz dos vitrais, da memorialistica das aldeias remotas do Shteitl e o lirismo onírico de Chagall.

          Além da minha própria história, pesquisei outras etnias fascinantes como os Falashas, os judeus negros da Etiópia, que se dizem descendentes  da rainha de Sabá e do rei Salomão. Apartados de todas as outras coletividades, mantiveram ritos e tradições judaicas, só sendo legitimados como judeus recentemente.  O quadro “Falashas” apresenta um homem orando com os seus “tefilin”, usando um brinco, acessório tipicamente africano, porém com a estrela de Daví. Ao centro da tela, uma poesia de um poeta israelense contemporâneo Yehuda Amichai, a respeito de um feitiço ou encantamento das palavras nômades, saltitantes e questionadoras, escritas sobre uma colagem em papel de seda, que remete aos pergaminhos e à rota da seda, um dos fluxos que fez com que os judeus viajassem pelo mundo.

          Também relacionado à rota da seda, há uma comunidade que por centena de anos prosperou na China, sofrendo um declínio no século 19. Atribui-se esse fato ao confucionismo tolerante e liberal a outras religiões, o que teria facilitado a assimilação desta comunidade à cultura chinesa . Recentemente, jovens chineses descendentes não só resolveram resgatar suas tradições e religião judaicas, como estabeleceram contato com Israel, indo até lá estudar e reestabelecer seus antigos vículos. No canto esquerdo da pintura “O Ultimo Judeu de Taipé”,  há a palavra “judeus” em chinês. No alto, um recorte de uma frase em hebraico, advindo de um reza. À direita uma figura que pode ser ambigua tanto no aspecto de genêro homem-mulher , como de sua origem oriental-ocidental.

Por Walter Muller e Nathalia Cruz